passei dois terços da vida aqui, catalogando retalhos
construindo monumentos às tarrachas de orelha
perdidas
um grande inventário amargo
a desinventar memórias em ordem alfabética.
e, mesmo assim, nunca pensei em te guardar
a sua presença que sobrevive ao tempo
mesmo em ausência
nunca foi registrada, não em mim.
é uma dessas coisas que sempre estiveram lá,
no canteiro central,
e que hoje tropeço no buraco.
me falta matéria de saudade
dessa relação verde fuligem
da qual o tronco
com cerca de 20 metros de altura
tombou
por volta das 15h
sobre os carros que conduziam
sem saber das suas raízes expostas
do seu nome científico
do pequeno ecossistema em colapso.
chegariam em casa sem saber do acidente que não matou ninguém
só ferimentos leves, disseram,
ignorantes da brutalidade da lembrança inventada.
sem você aqui posso dizer que era azul
e não marrom a rosa do teu botão
violentar a sua verdade com a minha
arrancar de ti frutos que nunca deu
e que agora o sumo me escorre o queixo,
não lágrimas.
afinal, seu nome não está escrito em lugar nenhum
nem aqui.
(talvez fosse um jatobá)