Rasura ou
Viagem escrita ao rio Ouse
Olho para a criança imersa no fundo do rio.
Meu corpo mergulha na água clara
e descobre a camada de lama que envolve
sua cabeça e pernas.
Vejo suas retinas viradas para dentro
do escuro; não são como as de olhos
que conhecemos, abertas ao que se nos mostra
para além do próprio corpo.
Se a menina fosse uma árvore aquática
creio que suas raízes já deveriam estar
apodrecidas, soltas da areia
mas ainda fixadas ao tronco.
Isso invadiria a seiva
pensei
como veneno alastrante, como ervas daninhas
que devastam
todo o campo, matando-no aos poucos.
Ela morreu. Sem demora.
Começo o trabalho de abrir seu peito
a fim de procurar no coração
a semente de sua vida e, assim, enterrá-la
na floresta mais próxima à margem do rio.
Encontro um broto de amor silencioso, que ainda respira.
Emerjo à superfície da água
carregando em uma mão
o corpo
guardando em outra
o broto.
Dele, arranco duas folhas pequeninas e
as pouso sobre minha língua
até se dissolverem devagar.
A criança não estava viva.
Eu, sim.
O espírito se tornou abrigo do que restava do sumo
silêncio de seu amor
por jamais esquecê-lo
e soprá-lo pela boca.
Eu lavo os vestígios de lodo
incrustados a sua pele, depois
deixo-a deitada na terra,
ao lado de uma
árvore ainda por nascer
sem duas folhas.
Encosto meu rosto em suas mãos
beijando-as.
Na travessia ao outro lado do rio
nado só
a pressentir, de longe
seu corpo úmido e aberto.
Patrícia Franca
olá, Patrícia, gostei bastante do seu poema, achei bem interessante. Só fiquei um pouco curioso do porquê da escolha exatamente deste rio (uma vez que você poderia ter escolhido algum outro).