Rasura Rio Ouse, Inglaterra, Reino Unido
Postado em 24 de setembro de 2018 / 697

Rasura ou

Viagem escrita ao rio Ouse

 

Olho para a criança imersa no fundo do rio.

Meu corpo mergulha na água clara

e descobre a camada de lama que envolve

sua cabeça e pernas.

Vejo suas retinas viradas para dentro

do escuro; não são como as de olhos

que conhecemos, abertas ao que se nos mostra

para além do próprio corpo.

 

Se a menina fosse uma árvore aquática

creio que suas raízes já deveriam estar

apodrecidas, soltas da areia

mas ainda fixadas ao tronco.

Isso invadiria a seiva

pensei

como veneno alastrante, como ervas daninhas

que devastam

todo o campo, matando-no aos poucos.

 

Ela morreu. Sem demora.

 

Começo o trabalho de abrir seu peito

a fim de procurar no coração

a semente de sua vida e, assim, enterrá-la

na floresta mais próxima à margem do rio.

Encontro um broto de amor silencioso, que ainda respira.

Emerjo à superfície da água

carregando em uma mão

o corpo

guardando em outra

o broto.

Dele, arranco duas folhas pequeninas e

as pouso sobre minha língua

até se dissolverem devagar.

 

A criança não estava viva.

Eu, sim.

O espírito se tornou abrigo do que restava do sumo

silêncio de seu amor

por jamais esquecê-lo

e soprá-lo pela boca.

 

Eu lavo os vestígios de lodo

incrustados a sua pele, depois

deixo-a deitada na terra,

ao lado de uma

árvore ainda por nascer

sem duas folhas.

Encosto meu rosto em suas mãos

beijando-as.

Na travessia ao outro lado do rio

nado só

a pressentir, de longe

 

seu corpo úmido e aberto.

 

Patrícia Franca

 

patriciaf
  • Guilherme Gonçalves says:

    olá, Patrícia, gostei bastante do seu poema, achei bem interessante. Só fiquei um pouco curioso do porquê da escolha exatamente deste rio (uma vez que você poderia ter escolhido algum outro).

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